Chuva

Chuva

 

Este texto fazia parte de alguns livros literários da década de 90, onde nós da equipe MUNDO EMOCIONANTE tivemos contato com ele pela primeira vez.

Trouxemos ele novamente pois sempre que lemos, nossas emoções afloram novamente.
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CHUVA

A primeira meia dúzia de pingos de chuva caiu de manso, apesar do escuro que o céu prometia desabar sobre o pedaço da cidade.
À saída da escola, nos portões abertos para a pequena multidão de alunos alegres com o final das aulas, misturavam-se chuva, gritos, guarda-chuvas, mais gritos, buzinas, olhares, corre-corre.
Dali, de onde eu estava, escondido sob a laje do pavimento de cima, podia vê-la mexendo na mala escolar, à procura de alguma coisa. Um guarda-chuva, certamente.
Quando ela viu que ele a olhava, desviou o verde de seus olhos e continuou, embaraçada, procurando o guarda-chuva. Até encontrá-lo.
Ele foi aproximando dela. Parecia pouco à vontade, mas decidido. Havia tempo ele a paquerava, de longe. Até achava ser correspondido.
Ela, desajeitada, abriu o guarda-chuva e preparou-se para enfrentar a água que agora caía bem mais forte.
– Vou lá perto de sua casa, me dá uma carona no guarda-chuva?
O preto dos olhos dele fazendo a pergunta corajosa para os olhos verdes dela, quase vermelhos de vergonha.
– Se você quiser…
– Claro que quero. Não trouxe guarda-chuva, e se entrar nessa, molho-me todo.
– Então vamos.
O guarda-chuva aberto acolheu os dois. Próximos, emparelhados roçando roupa com roupa, o coração dando pulos de contentamento.
– Que chuva, né?
– Inda mais sem esperar!
Um passo mal dado, uma poça d’água recém-nascida, e os ombros se tocaram num primeiro encontro, quase ingênuo.
– Desculpe.
– Não foi nada!
A chuva aumentou a intensidade. Caía mais forte e escorria, danada e zombeteira, pelas abas do guarda-chuva.
– Você está se molhando.
– Você também.
– Não faz mal. Me dê sua mala, deixe que eu levo. Assim você fica livre para segurar o guarda-chuva.
– Obrigada.
Na passagem da mala, dela para ele, as mãos molhadas se tocaram levemente. O coração acelerou o ritmo e o rosto avermelhou-se.
A chuva ficou mais forte.
– Estamos nos molhando muito, vamos parar?
– Não, chuva é gostoso. Faz bem. É banho diferente. Lava tudo!
– Por minha culpa você está se molhando…
– Que nada, de qualquer jeito, nessa chuva, eu ficaria molhada… o guarda-chuva é pequeno.
– É…
Instintivamente, ele passou o material para a mão direita e pôs seu braço esquerdo sobre o ombro dela.
– Se a gente se aperta um pouquinho debaixo do guarda-chuva, se molha menos.
– Acho que sim…
– O braço puxou o corpo dela para junto do corpo dele. O coração bateu mais depressa, o rosto queimava fogo, os corpos molhados vibravam.
– Já estou quase chegando. Minha casa é aquela de muro vermelho…
– Poxa, foi tão rápido…
Ele estreitou ainda mais o braço molhado. Não sentiu resistência. Ela soltava sua emoção, esparramada pelo corpo, para o braço do parceiro.
Apenas o cabo do guarda-chuva separava os dois. Que engraçado!
Em cima, embaixo, por todos os lados, a chuva forte derramava água farta, festejando o encontro juvenil.
– Posso falar com você outra vez?
– Na escola?
– Também.
Ela tingiu de brilho novo o verde dos olhos e respondeu com voz úmida, porém firme:
– Pode…
– Amanhã?
– Pode…
Eles selaram o acordo.
– Faz tempo que eu queria falar com você.
Ela sorriu e deixou escapar.
– Eu também.
A casa de muro vermelho chegou perto deles.
– Cheguei.
– Que pena!
– Você quer ficar com meu guarda-chuva?
– Não, já estou todo molhado.
– Leva…
– Não…
– …
– …
O coração a mil, bateria louca de escola de samba em dia de desfile, o corpo molhado, a boca seca, o rosto pegando fogo. Estavam um em frente ao outro, debaixo da chuva forte.
De onde eu estava protegido pela chuva, vi o guarda-chuva inclinar-se levemente para trás, cobrindo minha visão. Imaginei que essa manobra acidental me impediu de ver um beijo, tamanha foi a pressa com que ela entrou em casa e tamanha a alegria com que enfrentou a chuva, atirando para cima alguns cadernos, pulando poças e esticando braços e pernas numa sintonia encharcada.
Foi mais ou menos assim que eu vi, foi mais ou menos assim que ele me contou.
Foi assim, sem dúvida, que perdi minha primeira namorada.

– Edson Gabriel Garcia

 

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